Jorge Castelo Branco – As Rosas de Rilke

Jorge Castelo Branco – As Rosas de Rilke

              
As Rosas de Rilke, por Jorge Castelo Branco

Introdução a Les Roses / As Rosas (ed. bilíngue), Rainer Maria Rilke (Trad. Aida  Araújo Duarte)

Entre 1922 e 1926 Rilke recolhe-se no pequeno castelo(1) de Muzot sur Sierre, em Valais, região vinícola do cantão francês da Suíça. Sem telefone, electricidade ou água corrente – apenas um poço, um jardim de roseiras, uma decrépita capela e um cemitério abandonado; também uma diligente mas discreta criada a quem Rilke chamava “o fantasma”. No recolhimento do torreão de esquina, sentado à velha secretária de carvalho, frente a duas janelas com prolongadas vistas sobre o vale, cumpria a excruciante tarefa de completar o que considerava as suas mais importantes produções literárias: as Duineser Elegien(2) e os Sonette an Orpheus(3). Passara-se quase uma década de doloroso silêncio desde a publicação de Das Marienleben(4) (1913) e doze anos da publicação de Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge(5) (1910). As duas obras ficariam concluídas em 1922 e publicadas, ambas, em 1923. Nos três anos seguintes, até à sua morte, Rilke criaria em língua francesa quase toda a sua produção poética, um total de cerca de quatrocentos poemas que ficaram conhecidos como o ciclo francês de Rilke ou, o seu período tardio: Vergers(6) (escrito entre Janeiro de 1924 e Maio de 1925), Quatrains Valaisans(7) (escrito entre Agosto e Setembro de 1924) e outros três pequenos volumes: Les Roses(8) (escrito em Setembro de 1924), Les Fenêtres e Tendres impôts à la France. Mas por que terá Rilke decidido escrever em Francês, abandonando o à-vontade da sua língua mãe? O que leva Rilke nos píncaros da sua criatividade, em plena solidez – segundo Robert Musil “quando a porcelana se transfigurou em mármore” – a optar por um bilinguismo poético? Em carta ao crítico e amigo, o suíço Edouard Corrodi, Rilke explica-se: «Se hoje é iminente a publicação de uma selecta (cortesia de meus amigos) dos meus versos franceses, é porque uma série de circunstâncias me conduziram a este consentimento e a este risco. E desejo, antes de mais, oferecer ao cantão Valais o testemunho de um reconhecimento que vá mais além da esfera privada, por tudo o que recebi (desta região e desta gente). Logo, o desejo de ficar mais visivelmente ligado, como um simples aluno e uma pessoa agradecida, um pouco imodestamente, a França e à incomparável Paris, que representam todo um mundo na minha evolução e nas minhas memórias”. Se esta é uma explicação possível (quiçá a mais válida) certo é que os estudiosos da obra de Rilke questionam outras explicações: Terá sido de facto um mero exercício de linguagem? Terá Rilke (já publicadas as Elegias de Duíno e os Sonetos a Orfeu) percepcionado ter atingido o pináculo da expressão poética em língua alemã? Tê-lo-á a sua envolvência com a expressão poética em língua francesa – traduziu Mallarmé, Valery(9), Claudel, Louise Labé, Maurice de Guérin entre outros – influenciado e desafiado a procurar exprimir-se na língua que comparava a um sublime e exaltante vinho, amadurecido ao longo de séculos? Até que ponto também, ainda sob os latejantes ecos da I Grande Guerra, Rilke se sentiria disposto a renegar tudo o que fosse alemão, abraçando, pela língua, uma nova e revigorante liberdade? Até que ponto o seu relacionamento com a sua amante Baladine Klossowska (a “Merline”(10)), pintora que embora prussiana (de Wroclaw, na actual Polónia) fez toda a vida artística em Paris e com quem Rilke falava e se correspondia em língua francesa explorando todas as suas nuances, terá também contribuido? 
A Rosa será sempre o grande símbolo Rilkeano; é a beleza que se abre e se concentra, que se guarda e expande. Nestes vinte e quatro poemas que constituem Les Roses, Rilke dá-nos uma poesia marcada nos pormenores da rosa; observa-a atentamente, pétala por pétala, com objectividade, despe-se de grandes considerações subjectivas. A rosa basta-se absolutamente em si mesma: é perfume, vida, frescura. É um livro entreaberto (poema II), a plena perfeição, Narcisse exaucé. (poema V) o Narciso realizado, o tornar-se rosa. Ao sétimo poema, a morte começa a ser-nos sugerida pela imagem criada pelo poeta Ao encostar-te, rosa fresca e clara / aos meus olhos fechados, / dir-se-ia mil pálpebras / sobrepostas. Remete-nos para um Rilke, já consumido pela leucemia, tomando todas as providências relacionadas com sua morte, entre as quais, o epitáfio da sua sepultura no velho cemitério da pequena cidade de Rarogne:
Rosa, oh pura contradição, volúpia de ser o sono de ninguém sob tantas pálpebras.
A morte que chegou a 29 de Dezembro de 1926. Diz-se que uns dias antes Rilke recebeu no seu torreão de Muzot a poetisa egípcia Nimet Elui. Quis-lhe oferecer um ramo de rosas. Ao cortá-las, do roseiral junto ao velho poço, espetou um espinho no dedo; a infecção precipitou o seu fim. Simbolicamente, a suprema contradição de as rosas simbolizarem amor, mas também a evanescência, a morte.
Matosinhos, Março 2014
(1) Propriedade do mecenas Werner Reinhart, amigo de Rilke; (2) Elegias de Duíno(3) Sonetos a Orfeu(4) A Vida de Maria; (5) Os Cadernos de Malte Laurids Brigge (6) Nouvelle Revue Française, 1926; (7) idem; (8) idem; a edição em livro foi publicada em 1927, 1 ano após a morte de Rilke, pelo editor holandês A.A.M. Stols, com prefácio de Paul Valery. (9) Le Cemetièr Marin, 1921; Ébauches d’un Serpent, 1922; Eupalinos ou l’architecte, 1923; (10) “Merline” nome carinhoso como Rilke tratava Baladine Klossowka, sua amante, prussiana de origem judia, mãe do escritor Pierre Klossowski. Rilke dedicou-lhe os dez poemas de “Les Fenêtres”. Uma edição dos poemas, ilustrados por Baladine Klossowka foi publicada em 1927, 1 ano após a morte de Rilke.
 

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