Antes que o silêncio aprenda o nosso nome: literatura, loucura e a vertigem do humano em “Beckett”, de Alberto Pereira
Uma leitura crítica intensa e profundamente literária sobre Beckett, de Alberto Pereira, publicada no Jornal Atlântico Expresso por Diniz Borges, professor e investigador na Universidade Estadual da Califórnia em Fresno, onde fundou e dirige o “Portuguese Beyond Borders Institute” (PBBI).
“Beckett é um dos romances mais extraordinários que li nos últimos tempos.”
“A razão aproxima-se da loucura, o corpo torna-se território de memória e ferida…”
Às vezes, uma palavra abre uma fenda no mundo. Por ela entram a dúvida, a vertigem, o espanto, e aquilo que julgávamos sólido começa lentamente a perder os seus contornos. A razão aproxima-se da loucura, o corpo torna-se território de memória e ferida, Deus recua para uma zona de silêncio, a morte deixa de ser apenas um fim e a literatura começa a ocupar o lugar inquietante onde já não sabemos distinguir inteiramente a lucidez do delírio. É nesse território de fronteira, entre aquilo que somos e aquilo que tememos descobrir sobre nós próprios, que Alberto Pereira constrói Beckett. Entramos no romance como quem desce a um lugar onde a luz chega de outra maneira. Não para encontrar respostas — a verdadeira literatura desconfia quase sempre delas, mas para assistir à lenta desarrumação das certezas. Culpa, amor, fé, desejo, morte, corpo, loucura, liberdade: tudo aquilo a que demos nomes para tornar habitável a existência regressa aqui menos seguro, mais ambíguo, mais humano. Alberto Pereira escreve precisamente nesse intervalo: entre a palavra e aquilo que ela já não consegue explicar; entre a ordem que construímos para sobreviver e o abismo que continua, silenciosamente, a crescer dentro de nós. Beckett é um dos romances mais extraordinários que li nos últimos tempos, não apenas pela inteligência da sua construção, pela extraordinária liberdade imaginativa ou pela elegância de uma prosa que nunca esquece que nasceu num poeta, mas porque nos obriga a aproximar-nos dessa fronteira. Alberto Pereira não escreve para tranquilizar. Escreve para deslocar. E, ao deslocar-nos, recorda-nos que talvez a literatura comece verdadeiramente quando as palavras deixam de servir apenas para nomear o mundo e passam a interrogá-lo. Por isso, a epígrafe de Kafka escolhida para abrir o romance é muito mais do que um limiar literário: “O homem em êxtase / e o homem a afogar-se — ambos / levantam os braços.” Está aqui, condensado em três versos, quase todo o universo moral de Beckett. O mesmo gesto pode significar salvação ou desespero, revelação ou naufrágio. A aparência não basta. O mundo é ambíguo. E é precisamente nessa ambiguidade que Alberto Pereira instala o seu romance. Não por acaso, a primeira pergunta do prólogo é também uma pergunta sem resposta simples: “A loucura avança no asfalto ou no bosque?” A loucura que interessa ao autor não é apenas uma categoria clínica. É uma possibilidade filosófica, uma maneira oblíqua de olhar o mundo, talvez até uma forma extrema de liberdade. Beckett, no final da vida, encontra-se no hospício, mas continua a procurar “no abismo a verdadeira essência da obra de arte”; mesmo na clausura, compreende que “a liberdade não tem apelido”. Loucura, criação e liberdade começam assim a contaminar-se mutuamente. E talvez seja precisamente aí que começa a verdadeira vertigem deste romance: quando já não sabemos se Alberto Pereira nos conduz para dentro da loucura ou se, pelo contrário, é ela que nos obriga a olhar, com uma lucidez quase insuportável, para a aparente normalidade do mundo. Alberto Pereira parte de uma figura colossal da literatura ocidental — Samuel Beckett — mas tem a inteligência de não escrever uma biografia disfarçada, uma homenagem reverencial ou uma imitação estilística. Faz algo literariamente muito mais arriscado: transforma Beckett numa possibilidade ficcional. O nome deixa de pertencer apenas ao autor de À Espera de Godot e passa a funcionar como chave de acesso a um novo universo. Espalha, então, pelo romance, um sistema de sinais: Beckett, Estragon, Joyce, Malone, o Hospício Godot, a Universidade Leopold Bloom. Quem conhece a tradição literária reconhece as ressonâncias, mas o reconhecimento nunca se reduz a um jogo erudito. Há sempre uma história por baixo da história. O próprio Beckett vive numa casa transformada em museu. A cave chama-se Pergamon; a cozinha, Orangerie; a sala, Louvre; a biblioteca, Orsay; os quartos, Grande e Pequeno Hermitage. No Grande Hermitage repousam livros fundamentais da tradição ocidental, de Homero e Dante a Camões, Cervantes, Shakespeare, Dostoiévski, Joyce e Saramago. A casa deixa de ser apenas habitação: torna-se uma cartografia da cultura europeia. Beckett não mora simplesmente numa casa. Mora dentro da civilização que o formou. Esta dimensão é essencial. Beckett é profundamente contemporâneo, mas construído sobre a consciência dos clássicos. Alberto Pereira sabe que a literatura mais ousada não precisa de assassinar os seus antepassados; pode conversar com eles, contradizê-los, deslocá-los, fazê-los reaparecer sob outras máscaras. Cada livro verdadeiramente novo é também uma sala secreta construída dentro de uma biblioteca muito antiga. Talvez por isso a dedicatória a Gonçalo M. Tavares seja tão significativa: “exímio artífice de dias / que sabem pronunciar o Louvre.” Há, nessa formulação, uma poética inteira. Os dias podem pronunciar museus; uma casa pode conter cidades; um cemitério pode transformar-se num piano; um hospital, num convento; um corpo, num mapa; uma sepultura, numa biblioteca. O mundo de Alberto Pereira constrói-se precisamente através destas deslocações metafóricas. E aqui chegamos ao poeta. Porque Alberto Pereira nunca deixa de ser, de verdade, poeta ao escrever este romance. Antonio Gamoneda salienta a precisão do seu “discurso poético”; Ricardo Gil Soeiro chama a Beckett um romance “intenso e hipnótico, de escrita audaz”; Lauren Mendinueta encontra nele “o epicentro do sismo linguístico”. As três leituras convergem: a linguagem não acompanha simplesmente o romance; é um de seus acontecimentos fundamentais. A poesia infiltra-se na sintaxe, nas imagens, nos aforismos, nas associações inesperadas. Um centímetro deixa de medir distância e passa a medir sofrimento. Uma cama torna-se ensinamento. O hospital transforma-se em convento. O corpo passa a ser país, cidade, mapa, templo, ruína. “Um centímetro de enfermidade pode ocupar mais espaço na mente do que todo o universo”, escreve Pereira. E depois: “Os doentes não repousam em camas: deitam-se em lições.” São frases de romancista, certamente. Mas nasceram do ouvido de um poeta. O romance pensa através do corpo. A contracapa acerta no centro da obra ao afirmar que, no percurso entre universidade, hospital, prisão e consciência, o corpo deixa de ser um veículo para se tornar um lugar onde tudo se inscreve. O corpo é o grande manuscrito secreto deste romance. Nele se escrevem desejo, doença, violência, memória, culpa, morte e amor. A relação com Eva torna essa dimensão particularmente evidente. Beckett percorre o seu corpo como quem percorre uma geografia; faz amor “como se o corpo de Eva fosse uma basílica onde podiam rezar em uníssono”. O sagrado e o carnal deixam de ser contrários. O corpo transforma-se em templo e o desejo em liturgia. Mas Beckett desconfia das respostas demasiado fáceis, inclusive das oferecidas pelo amor. O amor não redime automaticamente. Pode elevar e destruir, ser descoberta e ilusão. “O amor mais robusto não tem alicerces que consigam contornar o tempo.” Outra vez a poesia entra onde poderia existir apenas psicologia. Talvez nenhuma personagem revele melhor a imaginação deste romance do que Estragon. Psiquiatra do Hospício Godot, tio de Beckett, irreverente, poeta e provocador, poderia sustentar sozinho outro romance. Os seus doentes constituem pequenas narrativas autónomas, cada uma com a sua própria cosmologia. Vanda teme gastar electricidade porque pode ficar sem dinheiro “para pagar o dia”. Isaac não sabe onde arrumou “a perna esquerda da segunda-feira”. Lacerda, antigo juiz, afirma ter absolvido grandes escritores e, olhando para uma estante, declara: “Esta prisão estava superlotada.” Ingrid planta seringas na terra porque espera curá-la para que a mãe possa regressar da morte. Seria um erro ler estas personagens apenas como excentricidades. Alberto Pereira concede à loucura uma gramática poética própria. Aquilo que parece delírio contém, por vezes, uma verdade que a normalidade já não consegue formular. Quem são afinal os loucos? Quem vive no Hospício Godot? Ou aqueles que construíram um mundo em que a violência, a hipocrisia, a exploração, a indiferença e a crueldade foram normalizadas? Estragon acaba por procurar silêncio num lugar extraordinário: compra um jazigo e transforma-o numa biblioteca. Onde deveriam repousar caixões, coloca livros. Entre os mortos lê os clássicos, escreve poesia e pensa o mundo. Alberto Pereira encerra essa passagem com uma das frases mais belas e violentas do romance: “Entre os mortos fazia a higiene da putrefacção dos vivos.” Poucas frases definem melhor o que a literatura representa neste livro. Não ornamento, passatempo ou decoração intelectual. Resistência. Um lugar onde ainda é possível preservar alguma lucidez. É também nesse território que surge Joyce, o coveiro que diz trabalhar “num piano”. Tendo estudado música antes de a pobreza o obrigar a abandonar o conservatório, encontra trabalho num cemitério cujos muros lhe lembram um piano. Aí pinta uma gigantesca pauta musical e converte cada pessoa sepultada numa nota do Réquiem de Mozart. Cada morto acrescenta música à parede. Cada desaparecimento contribui, paradoxalmente, para completar uma obra. Quando Joyce morre, é Beckett quem pinta a última nota. Vida, morte e criação tornam-se indistinguíveis. O coveiro é maestro. Os mortos são notas. O cemitério é partitura. E Beckett compreende que toda a arte talvez seja exactamente isso: uma tentativa de dar forma ao desaparecimento. Não surpreende que a morte esteja em toda a parte. Beckett é antropólogo forense. Trabalha com ossos, interroga cadáveres, viaja pelo mundo através dos mortos. A sua tese possui o magnífico título Exumação — Ossos de uma nação esquizofrénica. Mas os ossos nunca são apenas ossos. São arquivos, testemunhas, histórias depois da retórica desaparecer. Os governos mentem. As ideologias mentem. Os homens reescrevem o passado. Os ossos permanecem. Beckett escava cadáveres; Alberto Pereira escava a condição humana. Ambos retiram camadas. Ambos sabem que a verdade raramente repousa à superfície. Também por isso a frase “Só há duas maneiras de provocar o mundo: matando Deus ou sendo louco” estabelece dois dos grandes pólos da obra: Deus e loucura, fé e razão, ordem e transgressão. E quando surge a provocação “Um assalto faz bem à saúde”, o romance exige que suspendamos o julgamento. A agressão que parecia apenas maldade acaba por revelar, no corpo do protagonista, algo que poderia matá-lo. A moral deixa de caber numa linha reta. Alberto Pereira não diz que o mal é bem. Pergunta algo muito mais incómodo: podemos compreender plenamente as consequências de um acontecimento no instante em que ocorre? Um gesto mau pode produzir involuntariamente uma consequência boa? Uma queda pode ensinar a subir? “Os homens precisam do perigo para afinar a beleza. Tal como os pássaros, os seres humanos só aprendem o céu depois de conhecerem a queda.” Não estamos perante moralismo. Estamos perante tragédia. Desde os gregos sabemos que o homem raramente domina as consequências dos próprios atos. Pereira transporta essa consciência para hospitais, universidades, prisões, ruas, cemitérios e hospícios, tornando Beckett, simultaneamente, clássico e contemporâneo. Existe ainda o humor: negro, culto, absurdo, por vezes cruel. Um psiquiatra que fuma apenas tabaco produzido em países de esquerda porque não queria “nos pulmões o capitalismo”; um jazigo convertido em biblioteca; um cemitério transformado em piano; um juiz que absolve escritores. O absurdo nunca existe apenas para provocar riso. O riso é outra ferramenta de escavação. É aqui que a presença espiritual de Samuel Beckett se torna mais profunda. Não porque Alberto Pereira procure reproduzir a sua voz, mas porque compreende algo fundamental da tradição beckettiana: quando todas as grandes explicações começam a falhar, resta ainda ao homem a possibilidade grotesca e magnífica de continuar. Falhar melhor não é apenas uma estética. É uma ética da sobrevivência. O homem cai, ama mal, acredita mal, compreende tarde, perde, envelhece, enlouquece — e continua. E depois chegamos ao Hospício Godot. Ao homem que começou por organizar canetas, fatos, sapatos e rituais e termina onde a ordem já não consegue proteger o mundo. No início, Beckett é apresentado por meio de uma obsessão quase geométrica, até à imagem perfeita: nele, “a ordem existia de baixo para cima e o caos encontrava o auge no ponto mais alto do homem”. O romance inteiro já estava ali. A ordem nos sapatos. O caos na cabeça. Civilização no rés do chão. Abismo nas alturas. No epílogo ocorre uma última metamorfose. Hostels de Deus é a “obra escrita poru Beckett nas paredes do Hospício Godot”. A ficção engole a própria ficção. Beckett escreve dentro de Beckett. O personagem torna-se autor. O hospício torna-se página. As paredes tornam-se livro. E a loucura torna-se literatura. Em Hostels de Deus, cemitérios adquirem configurações fantásticas: túmulos transformam-se em tabuleiros de xadrez, restos humanos em diamantes, cemitérios em arquivos e música. Na Polónia, encontramos pianos enterrados. Os familiares colocam os dedos em mecanismos ligados aos dedos dos mortos e, no subsolo, “a sinfonia dos corpos toca uma melodia inefável”. Que extraordinária imagem para uma obra tão obcecada pelo que permanece depois de nós. Porque talvez Beckett seja, afinal, um romance sobre isso. Sobre aquilo que permanece. Depois do amor. Depois da fé. Depois do corpo. Depois da razão. Depois da memória. Depois da morte. A contracapa chama-lhe “um romance de confrontação” e pergunta: “Até onde pode ir a lucidez sem se tornar um risco?” Depois de terminar o livro, apetece acrescentar outra pergunta: até onde pode ir o ser humano sem precisar da ficção para sobreviver àquilo que descobre sobre si próprio? Alberto Pereira oferece-nos um romance extraordinariamente eloquente e elegante, pois não separa viver de imaginar. A literatura está por toda a parte: nas paredes, nos hospitais, nos cemitérios, nos ossos, nas bibliotecas, na memória dos clássicos, no corpo de Eva, nas frases dos internados, na pauta de Joyce, no jazigo de Estragon, nas paredes do Hospício Godot. Tudo pode transformar-se em literatura porque tudo contém uma história ainda não escutada. Essa é uma das maiores conquistas de Alberto Pereira: ter pegado no nome de uma figura magna da literatura mundial e, em vez de se ajoelhar diante dela, ter conversado com ela. Ter entrado no território de Samuel Beckett para sair dele com um universo inteiramente seu. A melhor homenagem que um escritor pode prestar a outro escritor não é imitá-lo, mas continuar a pergunta que ele deixou em aberto. Beckett é, por isso, muito mais do que um romance de referências literárias. É uma obra sobre a nossa humanidade num tempo que parece ter cada vez mais respostas e cada vez menos capacidade para formular as perguntas essenciais. Sobre o corpo que envelhece. Sobre a consciência que falha. Sobre Deus que se esconde. Sobre o desejo que promete eternidades e frequentemente entrega ruínas. Sobre homens que procuram ordem enquanto o caos lhes cresce na cabeça. Sobre a necessidade de continuar a pensar quando pensar se torna doloroso. E sobretudo sobre a literatura. Essa estranha atividade humana que continua a colocar livros onde deveriam estar caixões, música onde existem sepulturas, basílicas onde existem corpos e palavras onde começa o silêncio. Talvez por isso, quando fechamos Beckett, permaneça em nós a imagem de Joyce diante daquele enorme muro do cemitério, acrescentando pacientemente notas ao Réquiem de Mozart à medida que os mortos chegam. Uma vida inteira para completar uma música feita de desaparecimentos. E depois Beckett, finalmente, desenhando a última nota. É uma imagem difícil de esquecer. Talvez porque também sejamos isso: uma breve música escrita contra o desaparecimento. Cada nascimento acrescenta uma nota. Cada amor altera o compasso. Cada perda muda a tonalidade. Cada livro impede, por alguns instantes, que o silêncio vença. Na realidade, os grandes romances talvez façam apenas isso: encontram, no meio do ruído imenso do mundo, algumas palavras capazes de permanecer quando tudo o resto começa a desaparecer. Alberto Pereira encontrou-as em Beckett. E, depois de as lermos, alguma coisa delas continua a tocar dentro de nós. Como se, muito abaixo da superfície visível da vida, os corpos ainda soubessem música e a literatura fosse a última configuração que encontrámos para impedir o silêncio.