Nelson Ferraz: sobre “Todos os Pardais Solfejam Luz”
Há poucos pardais na minha rua. Há poucos pardais nas ruas que não são a minha rua. Fazem-se mil casas, mil janelas. Fazem-se mil casas com mil janelas sem gente. As pessoas ficam dentro das casas a cismar sobre falsos mapas para a felicidade. As pessoas, quando saem, saem pela garagem para não gastarem palavras. Fazem-se mil casas, mil janelas, mil janelas para gente que não gosta de janelas. E todas as pessoas são pessoas sós, terrivelmente sós como se fossem manhãs de outono.
Há poucos pardais na minha rua. Há poucos pardais nas ruas que não são a minha rua. Nem todas as pessoas dão por isso. Aos pardais, empurrados pelas gruas, pelos fumos e pelos ruídos permanentes das grandes cidades, restam-lhes os pequenos quintais. Quintais moribundos onde esvoaçam a celebração da existência das pequeníssimas coisas. E as pequeníssimas coisas também são eles: Minúsculos. Acastanhados. Acinzentados. Minúsculos. Vulgares. Invisíveis de tão vulgares.
Hoje é um tempo de sustos e de inteligências a morrer paralisadas pelo bafo da loucura. O mundo germina feridas que nos apontam labirintos bizarros. Nas cidades, nos países e nos continentes, alguns espantalhos tornaram-se hospícios portáteis. Sob o olhar tremido dos pardais, alguns espantalhos trouxeram as nuvens para o chão e agora destroem as hortas com pólvora e pesticidas. Tornaram-se agricultores das sombras, sujam a sobrevivência e usam o lixo, o fogo e as guerras, para inventar a suprema demência. Fazem-no com a convicção dos seus cérebros desdentados. Hoje o mundo é um “assim”, um substantivo ruidoso que nos inquieta. Mas confio nos pardais, confesso. São termómetros do planeta, é neles que deposito a secreta vontade de os continuar a ver como garantia de que a Terra ainda não preparou o suicídio. Serei, talvez, um pouco ingénuo, mas acredito que ninguém, como eles, consegue solfejar luz, sem pedir nada em troca. Ninguém, como eles, valida, tão genuinamente, a simplicidade da existência. Possamos nós viver o ritmo, o som da Natureza que é sacrário, e saber entoar a respiração, dizer o amor, cantar a sucessão dos dias, rezar às árvores, falar das coisas mais efémeras como a eternidade, por exemplo. Afinar com delicadeza a altura serena dos silêncios e viver cada melodia com o coração em pausa e assistir saltitando à duração de cada instante, sem medo das esquinas aguçadas da idade; fazer o som das infâncias até que a paz sossegue todas as memórias.
Às vezes, quando é manhã, ali em frente, no telhado do prédio cor de cinza, um pequeno pardal poisa para solfejar luz. Alheio à duração de tudo o que o rodeia, o pequeno pardal escolhe semear a melodia que equilibra a perfeição. Debica, vagarosamente, o sol, extrai-lhe as sementes e partilha, incansável, a essência da luz. Depois, chegam mais alguns pardais. Brincam felizes, alheios à duração de tudo,. Partilham a essência da luz. Ficam, eles próprios, feitos de luz. E cantam. A música nasce e esvoaça como se Deus estendesse as mãos e as Suas mãos fossem pequeníssimas asas. A alma da Terra equilibra-se, sem que alguém note que o infinito são quatro sílabas que se juntam na luz de um solfejo. Por uma vez, percebo que há partituras incapazes de serem explicadas pelos lábios de um batimento cardíaco. Ou de uma qualquer palavra com sandálias modernas.
Será que algum dia o Amor conseguirá iluminar, de forma permanente, o coração de todas as coisas? Não sabemos. Alheios à nossa duração, alheios à sua própria duração e, apesar de todas as incertezas, todos os pardais solfejam luz.
Nelson Ferraz