Morreu o António M. Oliveira (Guarda 29-12-1941 / Porto 18-01-2026)

ANTÓNIO
(Homenagem a António M. Oliveira, 29-12-1941/18-01-2026)
“É fácil percebermos que estamos em presença de um ser humano luminoso, um ser humano essencial para medir pessoas, um filósofo, um profundo defensor dos valores morais e um cultivador de serenidade.”
Excerto do texto da Apresentação de Para Tanta Gente Com Lágrimas, Seda Publicações, 2025.
agora
há palavras que são incapazes
de conter a lágrima
que o mapa da névoa
acendeu no sopro das sirenes.
que dizer de ti
do tu que sempre conjugou o abraço
como quem escreve com a própria luz.
agora
tudo o que podia ser dito
sobre o chão que caiu
não importa mais.
que dizer de ti
que eras um lugar iluminado
um berço de afecto
e asa que o tempo fuzilou.
por detrás da janela
vigiarás o que ficou a doer
nas gavetas vazias do sol poente.
que dizer de ti, António
que eras soalho e raiz
da Amizade grande.
pretérito não. presente.
sempre.
Nelson Ferraz
Inverno
Mais um Amigo que parte para a mais longa viagem. Mais um estelar caminho que se abre, rumo ao infinito. Como Francisco de Assis, quando chega a hora, despe-se publicamente o fato e o Caminho é somente de ascenção, Alma nua e Coração em Paz. No lugar anteriormente habitado é tempo de Saudade, dentro e fora do peito, na espera do reencontro. Boa Viagem querido Amigo! Deixas connosco inolvidável, a beleza da Luz que nos deste!
Maria Mamede
Um dia destes a gente encontra-se
Hoje o meu amigo António Oliveira deixou a face da Terra. A mensagem, enviada pelo seu editor – e grande amigo – Jorge Castelo Branco, atingiu-me como uma bala na testa, no momento em que eu terminava o almoço. Logo hoje que deveria ser um dia festivo cá em casa.
Conhecemo-nos, talvez, há uns 20 anos, numa altura em que eramos os dois divorciados e talvez isso tenha propiciado a nossa aproximação pois passávamos muito tempo juntos celebrando as nossas pequenas vitórias, celebrando a vida, mas também carpindo as mágoas que eram esquecidas com uma boa reserva tinta. Nessa altura começava eu a minha carreira de artista plástico e o António foi, desde o início, um dos meus grandes fans. Mais tarde, também ele iniciou a sua carreira de escritor com o seu primeiro livro “O que resta de Deus” e nunca mais parou. Eu também fui seu fã e tive ainda a honra de lhe ilustrar a capa de um dos livros seguintes: “Nunca mais tenho flores à sexta-feira”. Mas aquilo que marcou definitivamente a nossa amizade foi que, nos momentos difíceis de cada um, o outro esteve sempre presente. SEMPRE!
Nunca vou esquecer a sua grande ajuda a ultrapassar um dos momentos mais negros da minha vida e sei que o sentimento era recíproco pelos momentos em que estive presente nos seus. Aliás, quando nos despedíamos após cada reencontro ele sempre dizia aludindo à sua gratidão “…tu nunca te esqueças…”, e deixava a frase no ar, ao que eu respondia lembrando-me do quanto lhe devia “…e tu nunca te esqueças também”. E nenhum de nós esqueceu, mas a vida tem planos próprios. Os dois, voltamos a casar e o António foi viver para Braga. Íamos falando, seguindo a carreira do amigo, trocando emails, falando ao telefone, e os encontros pessoais foram rareando. Mas a vida é um momento e quando nos distraímos já passou.
Hoje o António deixou-nos. Assim, sem aviso. Sem dizer adeus. A notícia apanhou-me de surpresa, deixou-me destroçado, mas fica ciente, amigo, eu nunca me esquecerei. Aí ou aqui, um dia destes a gente encontra-se.
Até breve, António.
Sérgio Oliveira
O Poema liberta o Poeta
Conheci-te quando “nunca mais tinhas flores à sexta-feira”, mas a palavra florescia inteira, como se “o que resta de Deus” se revelasse em voz baixa, numa estória antiga de desencantos que afinal era promessa.
Desde então, caminhavas entre “nove contos menos, mais um”, sabendo que a vida nunca fecha contas…e que o poema acrescenta sempre aquilo que falta ao mundo.
Havia em ti a firmeza da pedra d’água, essa que resiste e corre, essa que guarda a memória do tempo sem nunca deixar de avançar. Por isso os encontros eram rituais, “logo à noite no Jerónimo”, onde a palavra pousava como quem encontra abrigo numa casa a sul das nuvens. Guardavas segredos como quem aceita “a maldição do templário”: proteger o invisível, defender o sagrado da linguagem, mesmo quando o preço era carregar o peso do silêncio.
E escrevias… como no “último ritual da sacerdotisa”, erguendo a palavra-estátua, observado por três velhos e um garoto: o tempo, a memória, a esperança e a infância eterna do poema.
No último ano, caminhámos juntos “para tanta gente com lágrimas”. Co-apresentei o livro, mas foi a vida que se apresentou nua, entre leituras,
respirações… e a rosa branca que o poema gravou para não esquecer.
Hoje, no coração da treva, o poema faz-se silêncio. Não porque a luz se extinga, mas porque já não precisa de voz.
Sobe como incenso, entre cultura, memória e eternidade, atravessando granizo, bruma e luar. O poema veste as noites de cristal, contorna destinos, agarra o universo no espelho da alma que se liberta. E nós ficamos a olhar as estrelas… a segurá-las nas veias da vida… a
compreender que não há partidas quando o Poeta se torna poema.
Hoje não choro. Leio-te.
E ao ler-te, reconheço: o poema libertou o Poeta. E ficou connosco.
Até sempre, meu Querido Amigo António. Descansa em paz, e que tua jornada além daqui ,seja um [e]terno espectáculo de luz e encanto…e contigo, consigamos ver o brilho desta estrela em ascensão.
E…em vez do choro, eu leio os versos de infinito, que neste Poema se liberta… extinguindo o pranto… e dor… que nesta hora, tua alma absorve…
Até sempre Poeta, que a palavra libertou!…
Libânia Madureira
Morreu hoje o meu amigo António Oliveira, jornalista, escritor, autor no blogue de As crónicas de Braga.
Não é forçado dizer meu amigo quando afirmo que não o conheci. Comungámos de muitas ideias no interior do blog, do que eu lia dele e do que ele lia de mim. Depois também do que líamos sobre cada um de nós fora do que publicávamos no blog. O primeiro contacto que tive com ele foi por interposta pessoa, pelo João Machado a quem pediu que me desse um abraço e isso teve a ver com uma crónica minha que o terá emocionado muito.
No verão de 2024 estava eu em Faro e envia-me o livro A maldição do Templário, um livro difícil de ler por causa do português antigo em que estava escrito .Comentei com ele a estrutura da obra e questionei se ele não se tinha esquecido de uma personagem, uma mulher, o que terá também acontecido uma vez a Gabriel Garcia Márquez, o ter perdido uma personagem Era assim que concebia a história com uma despedida afetuosa dessa mulher face ao viajante que iria correr mundo, a presença dela no livro terminava com a despedida. A descrição daquela época era fabulosa e não dei por perdido o meu tempo, antes pelo contrário.
Por razões de diversa ordem, disse-lhe que ler um livro, um romance, numa esplanada em Faro me levou aos meus tempos de adolescente e mais, a falta de hábito de ler em cafés levou a ter de reaprender a movimentar os braços. Brincámos à volta disto e a frase que depois me escreveu teve a sua piada: enviou-me dois livros e um email em que mais ou menos me dizia o seguinte; para que continue a treinar esses movimentos de braços vou-lhe mandar três livros, e estes foram:
- Nove contos menos, mais um
- O que resta de Deus – uma estória de desencantos
- O último ritual da sacerdotisa ou a estátua, três velhos e um garoto
Falei muito com ele, por email sobre o livro O que resta de Deus. Foi-me muito dolorosa a leitura, era um livro em parte autobiográfico sobre a guerra, sobre os traumatismos da guerra, e foi-me dolorosa porque senti que era ele que estava ali naquelas páginas muito bem escritas. Falou-me dos seus traumas de guerra, foi oficial em Angola, falou-me dos seus pesadelos ainda persistentes em torno da guerra. Disse-me que tentou tudo para ter paz, médicos, conversas com padres, etc., mas nada terá resultado. Falei-lhe de histórias de conhecidos meus a quem aconteceu o mesmo.
Falou-se em que um dia haveríamos de nos encontrar e com um almoço bem regado. Talvez, se houvesse céu e se ambos tivéssemos esse destino, talvez aí pudéssemos almoçar um almoço bem regado e nesse caso Deus não se zangaria. São muitos ses que dão em nada como é evidente para um ateu como eu.
Talvez a última conversa sobre livros que teremos tido teve a ver com um conto em que relatava o comportamento da sua personagem com um pequeno bando de pombos com que diariamente ela se cruzava e disse-lhe que na esplanada onde li o livro que falava das pombas verifiquei um pequeno bando de pombas com o mesmo comportamento que ele descrevia naquele conto: o condutor ou condutora do bando e os seguidores que cumpriam as ordens.
Nesta hora de despedida direi aos seus familiares: morreu um homem, morreu um homem que amava as letras, morreu um homem que amava a Humanidade. As suas crónicas de Braga assim o dizem e assim o respeitaremos e o conservaremos na nossa memória.
Júlio Mota
Hoje, morreu o António.
Estive com ele, pelo seu aniversário, há duas semanas. Não sei porquê mas quando me dão estas notícias de partida procuro sempre na lembrança o último abraço dado para me torturar com a ideia de que devia ter sido mais longo. Devia, talvez, agarrar-me a ele e não o ter deixado partir, Devia, talvez, tê-lo levado para o seu pequeno escritório apinhado de livros e perguntar-lhe sobre todo o muito que não sei. As conversas eram longas, sempre foram longas, (eternas?…) parecem-me agora tão curtas com tudo o que ficou por dizer.
Há dias, justamente no jantar do seu aniversário, tentávamos somar os anos da nossa história. Conheci-o na sessão de apresentação de um livro: Dibaxu de Juan Gelman. Na altura, ainda professor na Escola Superior de Jornalismo, veio pela mão do André Veríssimo. “Observei-te atento”, disse-me ele um dia: um jovem editor a depositar esperanças num livro, numa estranha ânsia de futuro. Pouca gente, desesperadamente ausente, abafada por por um grupo musical que animava os fins de tarde do Guarany que bem percebeu que não deveria parar de tocar. E o António, leu perfeitamente nos meus lentos gestos, no meu grave semblante, o desmoronar de todas as ingénuas expectativas. As coisas não seriam assim tão simples, soube eu, já sabia ele.
Trouxe o António para o meu pequeno mundo, esse mesmo que hoje, em boa parte, acabou de ruir. Ficará do António, o que resta de deus e todas as outras estórias, talvez memória…
Esta maldição de ter amigos…! ainda vai demorar a dor até que venha a saudade.
Jorge Castelo Branco