Morreu Manuel Xarepe (Estremoz 1933 | Elvas 08/08/2025)

Faleceu hoje, 8 de agosto, em Elvas, o poeta, escritor, dramaturgo e ensaísta Manuel Xarepe. Foi operário, empregado de comércio, funcionário público, escriturário, jornalista e dirigente cineclubista. Licenciou-se em Antropologia sociocultural e pós graduou-se em Sociologia das Religiões. Homem excepcional, solidário, amigo do seu amigo e profundamente sabedor das coisas da vida. Partilhei com ele inesquecíveis momentos. Deixou-nos um significativo legado literário: pela Seda Publicações publicou “Alentejo Crucificado” (contos), “Ciclo de Água” (poesia), “Homens, Gatos e Cães” ( crónicas) e, ainda este ano (talvez premonitoriamente…?), a peça de teatro “A morte não é o fim”. Descansa em paz, amigo Manel. (Jorge Castelo Branco).
Texto enviado por Libânia Madureira
A morte não é o fim.
Manuel Xarepe partiu ontem. O Poeta, escritor, dramaturgo e ensaísta, deixou-nos um legado literário que honra a nossa língua e a nossa memória colectiva. Entre as suas obras — Alentejo Crucificado, Ciclo de Água, Homens, Gatos e Cães —, o seu último trabalho, publicado este ano, foi a peça A morte não é o fim. Talvez numa visão prenunciadora, deixou-nos, nestas palavras, uma ponte entre o que se perde e o que permanece.
Este texto nasceu dessa ponte — entre a ausência física e a presença viva que continua a habitar-nos. É uma carta aberta ao amigo, ao autor e ao homem que se recusou a deixar que a morte tivesse a última palavra. A morte não é o fim Dizem que partiste ontem, amigo Manuel Xarepe. Mas não sei se é verdade — porque ainda hoje o teu riso pousou na minha memória, como um pássaro que regressa sempre ao mesmo ramo.
A morte não é o fim. Tu próprio o escreveste, com a tinta do Alentejo nos dedos, com palavras que sabiam a água, a homens, gatos e cães, e às histórias que crescem nas esquinas das aldeias. Agora és mais do que corpo: és vento a correr pelos campos de trigo, és sombra fresca à hora do calor, és verso que se recita sozinho, mesmo quando a página está em branco. A tua ausência é apenas física. Hoje, há uma presença subtil que ainda brilha… um fio invisível de ternura e memória que entrelaça o tempo com o coração saudoso — como folhas que, mesmo secas, continuam a enfeitar o caminho. Quando se vive um instante de felicidade, ele transborda da alma como uma chama viva, preenchendo o peito, a razão e o corpo inteiro. Mas quando se esvai… deixa um silêncio imenso, um espaço onde ecoa o abraço que não foi dado, uma ausência que pulsa e abrilhanta a noite. Dessa saudade brota uma poesia delicada, embalada pela brisa que traz o perfume do tempo. É o afago das memórias, o veludo das lembranças, um murmúrio de ternura que suaviza a realidade dura e nos envolve numa luz cálida e sábia. O resto ficou todo — os livros, os gestos, as conversas trocadas. E talvez seja isso que chamamos eternidade: quando o nome de alguém continua a ser uma casa acesa na noite.
Porque a morte… não é o fim.
Até sempre, amigo Manuel Xarepe.
Libânia Madureira, 9 de agosto de 2025.
Notícia no quinzenário “Brados do Alentejo”, ed. de 22ago
por Eduardo Olímpio

