Álvaro Maio e Isilda Nunes distinguidos no Premio Internazionale di Poesia Gabriele Galloni
O júri da edição de 2025 do Premio Internazionale di Poesia Gabriele Galloni premiou Álvaro Maio (poema “Matadouro de Inocentes”) com o 3.º prémio do concurso. Isilda Nunes foi também distinguida com Menção honrosa, com o poema “Mãe, não quero nascer – Um grito antes da existência”.
Seguem-se os poemas na versão original e na tradução para o italiano:

Matadouro de inocentes
Choram-me as lágrimas
Em pressão sanguínea constante
O que os meus olhos veem
Amarra-me o coração
A raiva desamarra-me os sentidos
O ódio enterrado em mim
Germina em calores vulcânicos
Na terra onde nascemos
Semeiam infernos como maternidades
Nascem e reproduzem-se
Demónios libertados
A Paz o pão e a liberdade
Transformam-se em fluidos de escravidão
Nem cultura nem agricultura
Como discípulos de lúcifer
Incendeiam vidas e pensamentos
Impedem a vida de acontecer
Com o terror a debandada acontece
Antes fugir do que morrer
Abandonados sem desculpas
Fogem tantas vezes para a morte que os espera
O matadouro de inocentes continua
E nós?
Esse mundo evoluído assiste
E este povo que é vítima?
Olhando o que não fazemos
Desiste!
Macello degli innocenti
Piango lacrime
in costante pressione sanguigna
ciò che i miei occhi vedono
mi lega il cuore
la rabbia slega i miei sensi
l'odio sepolto in me
germoglia nel calore vulcanico
nella terra dove nasciamo
seminano inferni come reparti di maternità
nascono e si riproducono
demoni liberati
pace, Pane e libertà
Si trasformano in fluidi schiavi.
Né cultura né agricoltura
Si trasformano in fluidi schiavi.
Come i discepoli di Lucifero
Danno fuoco a vite e pensieri.
Impediscono alla vita di accadere.
Con terrore, avviene la fuga.
Meglio fuggire che morire.
Abbandonati senza scuse.
Così spesso fuggono verso la morte che li attende.
Il macello degli innocenti continua.
E noi?
Questo mondo evoluto guarda
e queste persone che sono vittime?
Guardano quello che non facciamo:
Arrendetevi!

MÃE NÃO QUERO NASCER – Um grito antes da existência
Sabes, mãe,
tenho a pele tatuada pela tua angústia,
o corpo cinzelado pela dor que te chicoteia
e a alma fustigada pelas ventanias que te impuseram.
Sabes mãe, bebi todas as lágrimas que não brotaram dos teus olhos.
O teu pranto, o teu clamor, o teu medo e a tua fome de amor.
Engoli o soluço antes de ele se fazer grito,
o medo dos homens de mãos sujas e promessas falsas,
o medo da noite que não dorme,
da casa que não é berço,
do toque que não é afago.
Fiz do teu ventre a minha trincheira.
Escondi-me quando essas mãos grandes violaram a tua integridade.
E ali fiquei.
Oculta no silêncio do teu sangue, a menina que ninguém viu.
Humilharam-te, mãe. Humilharam-me.
Profanaram o teu altar e eu sou a prece interrompida.
Sabes, mãe, tenho medo do teu mundo.
Esse mundo que te reduziu a cacos tão pequenos
que nem Deus conseguiu colar.
Mapa de dores antigas onde a ternura nunca chegou.
Mãe, não quero nascer.
Não quero viver na escuridão que te sepultou viva.
Não quero herdar a fome de amor que te abrasa por dentro.
Não quero ser mulher num mundo onde as meninas nascem para morrer em silêncio.
O meu corpo ainda é barro, mas já carrega os sulcos da tua guerra.
Talharam-me com o cinzel da tua humilhação e com o frio da tua espera.
Sabes, mãe, sou uma menina.
Mas trago em mim a memória de todas as mulheres que arderam
e ainda assim acenderam o caminho.
MAMMA, NON VOGLIO NASCERE – Un grido prima dell’esistenza
Sai, mamma,
ho la pelle tatuata dalla tua angoscia,
il corpo scolpito dal dolore che ti frusta
e l’anima sferzata dai venti che ti hanno imposto.
Sai, mamma, ho bevuto tutte le lacrime che non sono sgorgate dai tuoi occhi.
Il tuo pianto, il tuo clamore, la tua paura e la tua fame d’amore.
Ho ingoiato il singhiozzo prima che diventasse grido,
la paura degli uomini dalle mani sporche e dalle promesse bugiarde,
la paura della notte che non dorme,
della casa che non è culla,
del tocco che non è carezza.
Ho fatto del tuo ventre la mia trincea.
Mi sono nascosta quando quelle mani grandi hanno violato la tua integrità.
E lì sono rimasta.
Nascosta nel silenzio del tuo sangue, la bambina che nessuno ha visto.
Ti hanno umiliata, mamma. Hanno umiliato me.
Hanno profanato il tuo altare e io sono la preghiera interrotta.
Sai, mamma, ho paura del tuo mondo.
Quel mondo che ti ha ridotta in frammenti così piccoli
che nemmeno Dio è riuscito a ricomporre.
Mappa di antichi dolori dove la tenerezza non è mai arrivata.
Mamma, non voglio nascere.
Non voglio vivere nell’oscurità che ti ha sepolta viva.
Non voglio ereditare la fame d’amore che ti brucia dentro.
Non voglio essere donna in un mondo dove le bambine nascono per morire in silenzio.
Il mio corpo è ancora argilla, ma già porta i solchi della tua guerra.
Mi hanno scolpita con lo scalpello della tua umiliazione e con il gelo della tua attesa.
Sai, mamma, sono una bambina.
Ma porto in me la memoria di tutte le donne che hanno bruciato
e che, nonostante tutto, hanno acceso il cammino.