Libânia Madureira lembra Joaquim Murale e Padre Mário de Oliveira

Libânia Madureira lembra Joaquim Murale e Padre Mário de Oliveira

     

Três anos de silêncio… (lembrando o Pe. Mário de Oliveira)

Três anos de silêncio… e, no entanto, a sua voz ecoa, nas páginas que lemos, nas memórias que nos habitam… no vento suave que nos toca, como uma história de modernidade.
Não há ausência onde há amor.
E o seu amor ficou, bordado no tempo, escrito nas entrelinhas da vida, nas sementes de esperança que lançou, e que, hoje, são raízes profundas no coração de quem o amou.
Três anos de saudade… e, sempre que o celebramos, uma lágrima nasce – não de dor, mas de gratidão.
Porque há presenças que não se desfazem, há luzes que nunca se apagam, há almas que, mesmo partindo, se tornam ainda mais nossas. Foi-se da terra, mas não se ausentou de nós.
Hoje, prossegue na sua viagem etérea e definitiva, para onde o tempo não pesa e a morte não existe, onde a vida é plenitude e a alegria não tem fim. E enquanto o celebrarmos, enquanto lhe dermos voz no nosso silêncio, ele continua… presente.
Porque há vidas que não se apagam, há legados que não se perdem, e há amores que, mesmo na distância, se tornam eternos.
Que a memória do Pe. Mário continue viva em cada semente de amor e esperança que ele deixou.

Libânia Madureira

Homenagem ao Pe. Mário Pais de Oliveira
Por Libânia Madureira
Semente de Liberdade
Há encontros que não se medem pelo tempo, mas pela transformação que provocam em nós. O meu encontro com o Pe. Mário começou no silêncio de uma leitura, entre as páginas de “Nascer de Novo”, em 1975. Ali encontrei mais do que um livro: encontrei inquietação que desperta, palavra que convoca, fé que se recusa a  permanecer adormecida. Desde então, Mário de Oliveira deixou de ser apenas um autor. Tornou-se presença viva: homem, irmão, amigo, presbítero livre — alguém que fez da própria vida um lugar de testemunho. O Pe. Mário viveu como quem semeia. Sabia que o trigo só se torna fecundo quando é lançado à terra, quando se
mistura com o pó dos caminhos e com o destino dos homens. Foi homem de pensamento livre e palavra corajosa. Nunca temeu ir até às últimas consequências daquilo que reconhecia como verdade. Despojado de dogmas que aprisionam e de preconceitos que obscurecem o olhar, fez da palavra um instrumento de libertação. A sua voz não nasceu para condenar, mas para despertar consciências — e por isso incomodou. Foi censurado, contestado, julgado e até preso. Mas nunca renegou o caminho que escolheu. Permaneceu fiel ao Evangelho vivido na realidade concreta da vida — no sofrimento dos povos, nas injustiças denunciadas, na dignidade que sempre defendeu. Da Guiné à Lixa, dos livros às páginas dos jornais, do pensamento à acção concreta, percorreu muitos caminhos. E em todos deixou sementes:
sementes de liberdade, de consciência, de fraternidade. A sua obra — mais de cinquenta livros — permanece como verdadeiro testamento espiritual. Não uma herança de bens materiais, mas um legado de pensamento crítico, de fé libertadora e de profunda humanidade. São palavras que continuam a provocar-nos, a inquietar-nos, a chamar-nos a “Nascer de Novo” — tantas vezes quantas forem necessárias ao longo da vida. Hoje, na véspera do seu primeiro nascimento, recordamos o Pe. Mário. Mas recordar não basta. Recordar é também assumir a responsabilidade de continuar aquilo que ele começou: viver uma fé consciente, livre e comprometida com a vida. Há pessoas que não partem verdadeiramente. Transformam-se em presença interior, em luz que permanece acesa na memória e na consciência de quem as encontrou. E o Pe. Mário permanece: nos livros que escreveu, nas ideias que despertou, nas amizades que construiu, nas comunidades que ajudou a formar. Permanece sobretudo na liberdade que nos ensinou a procurar e na coragem de viver inteiros aquilo em que acreditamos. Hoje, a sua ausência pesa, mas a sua presença continua a habitar-nos. E talvez seja essa a verdadeira vitória da vida sobre o tempo: quando uma existência se transforma em semente que continua a germinar. Quem semeou liberdade, consciência e Evangelho vivo não desaparece: continua a nascer em cada vida que escolhe viver com verdade. O Pe. Mário partiu do nosso olhar, mas permanece no caminho de todos os que ousam viver o Evangelho com liberdade e consciência. Aqui não termina uma vida — continua uma semente.

À memória do Pe. Mário
Há nomes que o tempo não consegue apagar.
Há vozes que continuam a ecoar mesmo quando o silêncio parece ocupar o seu lugar.
O Pe. Mário foi uma dessas vozes: homem de fé inquieta, peregrino da palavra, artesão de esperança.
Onde havia dúvida, despertou pensamento.
Onde havia silêncio, fez nascer diálogo.
Onde havia dor, procurou caminhos de reconciliação e paz.
Hoje já não o vemos entre nós, mas reconhecemo-lo nas sementes que deixou espalhadas na vida de tantos.
Que a sua voz continue a ressoar, não apenas na memória, mas nas escolhas que fazemos e na forma como decidimos viver o Evangelho.
Para que a memória permaneça viva, há presenças que se tornam parte da nossa própria história.
O Pe. Mário foi uma dessas presenças: pastor de consciências, mestre de palavra livre, guardião de um sonho que continua a unir-nos.

Esta homenagem não nasce apenas como recordação. Nasce como compromisso: compromisso de manter viva a luz que ele acendeu, de continuar a escutar as perguntas que deixou, de caminhar com a mesma liberdade interior que marcou a sua vida. Na Associação Padre Maximino, nos encontros que promoveu, nas amizades que construiu, permanece viva a semente que lançou. E assim seguimos: entre memória e esperança, entre gratidão e responsabilidade. Porque quem semeia vida, verdade e liberdade… nunca desaparece verdadeiramente. Quando a fé se torna vida e a palavra se torna liberdade, a morte já não tem a última palavra. O Pe. Mário não termina na memória: continua a viver na coragem de quem escolhe amar e pensar em liberdade. E enquanto houver quem procure a verdade com coragem e viva o Evangelho com liberdade, o Pe. Mário continuará entre nós. O Pe. Mário de Oliveira não pregou apenas o Evangelho — viveu-o!

Libânia Madureira

São Pedro da Cova, 07 de Março de 2026

Lembrando Joaquim Murale, em dia de Aniversário!…

Num dia como o de hoje, em que o tempo se veste de saudade e o coração se enche de lembranças, celebro com emoção, o aniversário do meu querido e eterno amigo, Joaquim Murale. Ainda que a sua presença física se tenha desvanecido no horizonte do tempo… sua essência permanece viva, pulsando em cada memória… em cada palavra, em cada emoção que desperta ao recordar a melodia única da sua alma.

O Joaquim era mais do que um amigo: era uma canção em forma de gente, uma poesia encarnada que transformava cada encontro num espectáculo de beleza e autenticidade. Seu espírito inquieto e livre, ultrapassava as amarras do tempo cronológico, transbordando para um presente contínuo… onde a sua influência ainda ressoa. Sua arte era verbo e substância, e a sua sensibilidade era luz que clareava caminhos… e a sua presença, um presente que a vida me deu!…

Ao recordar J. Murale, não apenas revivo os momentos partilhados, mas celebro a grandiosidade do seu ser. Sinto a alegria imensa de ter sido testemunha da sua jornada, de ter ouvido as notas do poema vivo que ele foi. Sua marca está impressa no mundo, e o “Belo” que habitava nele, continua a inspirar, a ensinar e a encantar.

A voz do silêncio nunca se cala para aqueles que amamos. Mesmo muda, ecoa para além dos anos, dos dias e das horas. Assim é Joaquim: uma presença que transcende a ausência, uma luz que mesmo distante, nunca se apaga. Sua arte, impregnada de liberdade e verdade, foi a sua mais genuína forma de expressão, e seu legado segue como um farol para todos que nele encontraram inspiração.

Embora a Psicologia Social e das Organizações tenha sido a sua base profissional, foi na arte da palavra que sua alma encontrou pleno voo. Entre a prosa e a poesia, navegou com maestria, desenhando mundos onde a liberdade era seu adjectivo e a arte, seu substantivo. Muito de Joaquim ainda permanece para ser compreendido e descoberto, mas uma coisa é certa: sua voz criativa jamais será silenciada.

Hoje, celebramos não apenas o dia em que a vida nos presenteou com a sua existência, mas também a eternidade do seu legado. Porque amigos como Joaquim Murale não se perdem no tempo; eles vivem em cada emoção que despertam, em cada verso que nos toca, em cada lembrança que nos aquece.

Até um dia, meu querido Amigo, onde quer que estejas, sei que continuas a escrever o infinito com a tua luz!

Com eterna amizade e saudade.

Libânia Madureira

 

DOIS ANOS DE SAUDADE.

No silêncio deste dia, volto a ouvir-te como quem escuta o mar ao cair da tarde. E dou este mar por um céu de andorinhas, porque ainda há voo nas palavras que deixaste, ainda há claridade nas margens do tempo onde o teu nome permanece.
Partiste há dois anos — dizem os calendários. Mas há sempre um sonho no enquanto, e tu continuas inteiro nessa geografia invisível onde os poetas nunca morrem verdadeiramente. Apenas mudam de jardim. Apenas atravessam, de uma vez por todas, a fronteira da luz. Às vezes sinto-te em exausto exílio, caminhando pelos corredores da memória, como quem regressa devagar de um inverno entre chacais, trazendo nos bolsos gotas de orvalho e pequenos pedaços de eternidade. Outras vezes, és apenas riso largo como lua plena, derramado sobre as noites mais fundas, quando a tristeza se senta ao meu lado e abre, em silêncio, uma janela na treva.
A tua obra ficou — alegoria do mar, crónica dos dias pardos, viagem incessante entre a ira e a ternura humana. E quem te lê ainda dobra contigo o cabo dos medos, ainda resiste nos dentes do lobo, ainda aprende a permanecer até ao último sopro.
Há livros que se fecham. Os teus não. Continuam acesos nas mãos de quem procura abrigo para a alma. Porque cada verso teu foi um manifesto contra a morte do futuro, mesmo quando o mundo se tornava áspero tempo das marionetas e o coração humano se perdia nos jogos viciados da ausência.
Hoje lembro-te com saudade, sim Mas é uma saudade povoada de presença — como se caminhasses devagar pelos campos da tarde, entre oliveiras e vento, recolhendo luz para a eternidade. E talvez seja isso a poesia: uma forma de ficar.
Uma maneira de continuar a florir depois da partida. Como o orvalho que regressa, madrugada após madrugada, ao mesmo lugar onde a esperança adormeceu.

Libânia Madureira (26-05-2026)

Homenagem a Pe. Mário Pais de Oliveira por ocasião da tertúlia organizada pela Associação Padre Maximino, a 14 de junho de 2025, em memória do Padre Mário de Oliveira.

Testamento de Liberdade e Amor
Há encontros que mudam a direcção da nossa vida. O meu com o Pe. Mário aconteceu entre as páginas de “Nascer de Novo”, um ensaio de catequese libertadora, em 1975, onde as palavras não se limitavam a ensinar, mas a acordar. A partir desse momento, Mário deixou de ser apenas um nome para se tornar presença viva: o homem, o amigo, o irmão, o presbítero livre e inteiro.
“O trigo só é fecundo se no campo for semeado…”
Mário, foi o verbo encarnado em coragem. Nunca teve medo de ir até ao fim da sua razão. Foi filho da RUAH, sopro de vida, e com esse sopro, fez nascer em tantos de nós uma nova maneira de ver e viver a fé. Despojado de dogmas, desarmado de preconceitos, combatente incansável contra a ignorância, usou a palavra como instrumento de libertação e não de condenação.
Foi expulso, censurado, julgado e preso. Mas nunca se calou. Nunca desistiu. Da Guiné à Lixa, dos jornais à “Associação Padre Maximino” e ao “Barracão da Cultura”, passou por onde mais doía, e ali semeou evangelho. Um evangelho vivido, não apenas profetizado.
Com mais de 50 livros, deixou-nos um testamento. Não de herança material, mas espiritual. De liberdade, de consciência, de resistência e de ternura.
Obras fecundamente polémicas, profundamente maiêuticas, que nos obriga a “dar à luz” a verdade que carregamos por dentro.
Hoje, celebramos o Pe. Mário. Mas mais que isso: comprometemo-nos a não deixar que a sua memória se apague, nem que a sua voz se silencie. A continuar a ser evangelho nos caminhos que percorremos. A manter viva a luz que nos acendeu. Porque a saudade que sentimos é também semente do que queremos continuar.
Pe. Mário não partiu. Ele permanece nos versos, nos gestos, nas lutas, na liberdade que ainda buscamos, no amor que nos une, e na certeza de que viver a fé é, acima de tudo, viver inteiros.
“Onde havia dúvida, semeou sabedoria, onde havia dor, determinados caminhos de paz. Hoje, a sua ausência pesa-nos, mas a sua presença habita-nos.”

À Memória do Pe. Mário
Há nomes que não se apagam, há vozes que o tempo não silencia, gestos que, como raízes, permanecem vivos na terra dos corações. O Pe. Mário foi verbo e luz, peregrino de palavras e fé, tecelão de esperanças nas páginas da vida. Onde havia dúvida, semeou sabedoria, onde havia silêncio, fez nascer a partilha, onde havia dor, abriu caminhos de paz.
Hoje, a sua ausência pesa-nos, mas sua presença habita-nos. Nos livros que tocou, nos encontros que desenvolveu, no grupo que uniu com ternura e verdade. Que sua voz continue a ecoar, não apenas na memória, mas na missão que seguimos, na fé que nos liga, na obra que persiste, como um farol na eternidade.

Para que a Memória não se Apague
Há pessoas que nos marcam para sempre, vidas que se entrelaçam às nossas,  presenças que o tempo não consegue levar. O Pe. Mário foi uma dessas presenças. Pastor de almas, mestre de palavras, guardião de um sonho que nos uniu. Não podemos deixar que sua memória se apague, nem que o seu legado se perca no silêncio. Por isso, esta homenagem nasce, não apenas como tributo, mas como compromisso: de manter viva a sua luz, de gravar as suas palavras, de continuar a caminhada que ele atraiu. E nesta lembrança, cresce também a certeza da amizade que nos une, da força do que construímos juntos, do valor de cada encontro e partilha, na semente semeada neste chão de ternura, desta Associação Padre Maximino. Hoje, a sua voz ecoa na ternura da semente lançada — na liberdade que cultivamos, e no amor que continuamos a semear.

Libânia Madureira

São Pedro da Cova, 14 de Junho de 2025

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