Cinema Paraíso
Certos sítios e lugares evocam rostos e, com eles, momentos decisivos de um pretérito, recuperado como brechas numa realidade que sabemos ser descontínua. Os sítios agem como suporte alterado mas familiar desse rosto e desse momento, (recordamos melhor o que envolve rostos e presenças fortes para nós) e que a memória, dispositivo que se vai tornando retórico para defesa da nossa representação de si, nos impõe.
O mítico Cinema Paraíso exige, por isso mesmo, a narrativa mítica da sua fundação, com as imagens visuais, com os textos, com as explicações, espécie de coro da tragédia grega repautando o passado, avisando, mostrando. O mito, sabemos, é um espaço e tempo restaurado, magicamente introduzido no presente que o convoca, aceitando o eterno retorno dos tempos felizes e/ou fundadores. Mas é o presente que o convoca, que o deseja, através de uma das ficções que rodeiam o pensamento imaginário do homem.
Aqui, nestas imagens fotográficas que iniciam a narrativa com a evocação do lugar, devidamente acompanhadas com os textos do seu canto, o passado coincide com o presente que o solicita e uma rua que parece um beco de outros tempos ou um cão atento ao movimento ao lado de um antiquado marco do correio, ou ainda um palco de um cineteatro vazio, relevam a permanência das coisas; a anémona a preto e branco ou a cobertura, desenrolando-se com uma folha de papel, do Terminal, acentuam a atualidade do registo: é da brecha no tempo que se trata. João Botelho tem testemunhos mais realistas nas imagens dos equipamentos cinematográficos que nos levam ao trabalho de produção do filme. Charlot, um dos mitos urbanos do Modernismo, numa qualquer manifestação, lá está, significando o cinema e o tempo da imagem geométrica e da valorização da coisa industrial.
As associações da memória datam os cartazes das eleições, a propaganda da FRS e a do PS de Mário Soares, numa bela imagem de encenador. Os cadernos de autor lembram a produção, a multidão em contraluz, amiga e descontraída, em volta dos músicos na praça, são a refundação dos trabalhos e os dias evocados, com irrupção pregnante de outros signos e sinais; a gaivota imóvel no seu pedestal, signo da cidade marítima, as pombas voltejando num instantâneo à Robert Frank, o nome Metropoli ou o monumento de Pampelido, como uma velha chaminé de altos fornos na antiga Praia dos Ladrões, o cais e a cidade dos contentores, com ruas de acesso, ou aquela escada oscilante, entre o mar e a terra, num universo de pontos de luz. Que memória pode trazer a escrita que se inscreve nas lonas molhadas, como uma pintura dos anos setenta ou a sincrética convivência de um transatlântico com os barcos de pesca do porto?
As imagens fotográficas e os textos não definem significados, antes constroem sucessivos significantes através de um mar de signos evocativos que restituem linguagens de aproximação, onde um vago mistério é semeado pela deliberada indeterminação do imaginário.
Tereza Siza
livro no formato 22,5×22,5cm com 80 páginas
ed. Junho 2023
Autor
João Botelho
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