Subjectividade, semântica e estruturas da vida íntima / Cláudio Alexandre dos Santos Carvalho
Subjectividade, Semântica e Estruturas da Vida Íntima. Investigações em torno dos conceitos de Família e Género da Sociedade Moderna
A família e o género mantêm na sociedade contemporânea determinados traços onde se detecta a extrema importância que assumiam nas sociedades com diferenciação segmentária e estratificada. A Filosofia clássica elegeu a família como tópico cardinal para o debate da ordem política, ética e pedagógica, ao passo que nela o género permaneceu como pressuposto indiscutível. Se esse é um conceito moderno é justamente porque nele se põe em causa a simplicidade e fixidez da ontogénese individual conforme ao modelo clássico da individuação. Este estava assegurado por uma configuração rígida das relações de parentesco. A intimidade que caracteriza a sociedade moderna é o resultado de profundas alterações na diferenciação interna da família e na marcação da fronteira relativamente ao seu meio exterior. É a partir da observação da vivência emocional que na sociedade contemporânea se tematiza o enlace conjugal com base na livre escolha, na manutenção de vínculos duradouros com partilha de responsabilidades e recursos e no delinear de projectos de vida conjunta. Essas características não decorrem de um conceito imutável de família a que os seus membros se conformam mas resultam do encadeamento complexo entre diferentes discursos normativos onde se observam os modelos e práticas familiares. A descrição adequada da intimidade requer a análise não só da continuidade das formas familiares antigas mas também da alteração do modo como os sistemas psíquicos se relacionam com a comunicação íntima. A generalização simbólica do amor-paixão, a observação da vida emocional e da individualidade resultam de um longo processo de descrição da família nos diferentes discursos da sociedade. Na semântica que se adensa em torno da família encontramos um conjunto de selecções e esquemas comunicativos onde, apesar do declínio da vigilância moral sobre o comportamento dos seus membros, se inscrevem as formas adequadas de co-referência emocional que caracterizam o sistema da intimidade. A irrupção do romance como forma literária onde se irão inscrever as novas condições que presidem ao encerramento íntimo, a teoria e prática científica da Psiquiatria e da Psicanálise e também a evolução do discurso feminista, partilham como ponto de partida uma referência a essa semântica que passa a conceder prioridade à realização do indivíduo, ao mesmo tempo que lhe propõe novos motivos e exigências de sensibilidade à vivência dos demais membros do sistema. A generalização de meios comunicativos diferenciados, não transparentes à consciência constitui a oportunidade contemporânea de observar a estrutura e processos que caracterizam a intimidade. A selectividade da semântica da intimidade liberta-se de padrões morais ubíquos objectivando novas exigências psíquicas na estrutura social. Examina-se a hipótese de que a demarcação do conceito de género da necessidade natural ou divina é um dos mais expressivos resultados da semântica da paixão.
FORMATO: cm 16,5 x 23 | 478 páginas
EDIÇÃO: Fundação Eng. António de Almeida, Porto, Dezembro de 2015
